Empreendedorismo feminino: os desafios e a importância da diversidade e inclusão nas empresas

O mês de novembro traz um tema que proporciona diversas discussões. Mulheres cada vez mais têm conquistado sua voz e seu espaço na sociedade, principalmente no empreendedorismo. Especificamente no dia 19 deste mês é comemorado o Dia Internacional do Empreendedorismo Feminino e, como um único dia não seria suficiente, produzimos uma série com 30 entrevistas de mulheres fantásticas para falar sobre o tema. 

Hoje conversamos com Talita Matos, co-fundadora da Singuê, uma consultoria de diversidade, equidade e inclusão. Formada em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com mestrado em Educação Inclusiva e Diversidade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), tem uma trajetória de 13 anos com organizações sem fins lucrativos e responsabilidade social privada.

Qual foi o start da Singuê? 

Quando deixei o Impact Hub Floripa, em dezembro de 2020, segui para uma carreira de consultora independente. Os projetos maiores começaram a surgir em maio de 2021, foi quando decidimos crescer e criar uma operação para atender esses clientes mais robustos. Hoje somos eu e meu sócio Eliezer Leal, mais uma designer e uma gerente de projetos. A empresa tem crescido de forma bastante acelerada, mas estamos mantendo a qualidade e constância. Hoje temos grandes clientes como o Sicredi, a Central Ailos, o Nubank, a Netflix e a Neoway.

Quais são os desafios de empreender como mulher? E o que você indica para quem quer começar?

Acredito que existem desafios internos e desafios externos. Vivemos numa sociedade machista que tende a subestimar a capacidade das mulheres em liderar negócios consistentes e de sucesso. Contra isso, é importante se manifestar e estarmos atentas. Existem também os desafios internos ligados ao autoconhecimento e autoconfiança. Precisamos nos conhecer bem, saber quais são nossos pontos fortes, saber o valor que entregamos e posicionar muito bem esse valor. Apropriadas do nosso melhor, temos que ter autoconfiança para tocar nossos negócios, precificar nosso trabalho, desenvolver teses de negócio que sejam ambiciosas e sustentáveis, manter no centro o que é importante, nossos valores e propósito. Costumo dizer que todo mundo pode empreender, mas que isso deveria ser uma escolha. Depois de mais de 15 anos de carreira eu pude fazer essa escolha com mais maturidade. Para quem quer começar é fundamental esse processo de autoconhecimento. É também se sentir motivada em resolver problemas, em desenvolver produtos e serviços que sejam relevantes para a sociedade, um dos maiores erros que podemos cometer ao empreender é uma paixão excessiva pelo que fazemos, pelos nossos produtos e nos distanciarmos do que as pessoas realmente precisam. Para um negócio parar de pé ele precisa ser relevante. 

Quais os benefícios para uma empresa ao se inserir nesse contexto?

Somos um país negro e feminino, os dados mostram isso, no entanto somos a minoria nas empresas, especialmente em níveis hierárquicos mais altos. Há ao menos dois aspectos importantes sobre diversidade, equidade e inclusão nas empresas. O primeiro diz respeito ao papel social das empresas brasileiras em incluir no seu quadro de colaboradores a real demografia do país e é preciso estratégia e intencionalidade para fazer isso. O segundo diz respeito ao valor gerado pela diversidade como inovação, pela inclusão como um elemento fundamental de bem estar e conexão das pessoas com as empresas que trabalham e da equidade como um dispositivo de justiça de garantia de oportunidades que consideram todes. 

O que ainda precisa ser feito no âmbito local, considerando o contexto de SC, e nacional?

Avançamos muito nos últimos anos, hoje para as maiores empresas do Brasil diversidade é um caminho sem volta. Muitas empresas desenvolveram áreas inteiras focadas na atração de talentos diversos e algumas estão sofisticando as ações criando programas de inclusão. Enquanto muitos executivos já estão convencidos de que essa é a coisa certa a se fazer, ainda existem barreiras entre os profissionais mais tradicionais que desenvolvem algum papel de liderança, esse é um desafio de educação e sensibilização. Mas não podemos parar aí. No Nubank, por exemplo, estamos desenvolvendo um programa super sofisticado de aceleração de carreira para profissionais negros chamado Black Leaders. O Nubank vem contratando com muita consistência e sabe que para que esses profissionais permaneçam e se sintam pertencentes é fundamental investir em desenvolvimento. 

Como é prestar consultoria para essa causa? E como é a receptividade das empresas nesse sentido?

As portas estão super abertas. Tenho uma trajetória pessoal que gera confiabilidade nos clientes. Se por um lado sou uma especialista nas temáticas de diversidade, já fui CEO e eu e meu sócio entendemos de negócio, temos empatia para compreender os desafios de pessoas e para compreender os desafios e oportunidades de negócio. Esse é um diferencial importante. Ter um posicionamento definido também foi importante. Hoje a Singuê atua basicamente com duas frentes: modelagem da estratégia sob uma perspectiva de co-criação e desenvolvimento de públicos de diversidade. Nós também decidimos o perfil dos nossos clientes. Queremos estar em empresas que já se convenceram e se comprometeram com a temática, chegamos quando a sensibilização já foi feita e ações estruturantes e que movam o ponteiro precisam ser desenvolvidas. 

Entre expectativa e realidade, o que você achava que era empreender e o que de fato é?

Empreender é manter-se em movimento, não tem muito espaço para refletir demais sem agir, sem testar, sem validar mudar quando precisar. Estive muito perto de uma rede de mais de 500 empreendedores no Impact Hub Floripa, aprendi muito com cada um deles então cheguei com poucas expectativas. Na verdade não imaginava que a consultoria fosse ter tanto sucesso em tão pouco tempo, mas não me surpreendo porque sei o que eu, meu sócio e nosso time podemos realizar e isso me deixa segura em crescer com muita consistência e qualidade.

Quais lições de empreender no seu segmento?

Empreender em consultoria é sobre ser especialista, estudiosa, antenada nos movimentos de mercado e dos temas que a consultoria trabalha. Além da dedicação ao estudo, o que mais nos ajuda é a conexão com outras pessoas consultoras, aprender com pares, aprender com consultorias maiores e compartilhar nossos próprios aprendizados. Essa perspectiva da colaboração é real para a Singuê e super recomendamos.

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