Economia SC Drops: os planos da primeira mulher eleita para presidência da Sociedade Brasileira de Física

Em junho, a professora Débora Peres Menezes, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi eleita presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF), a maior sociedade científica, em número de sócios, do Brasil. Ela, que já utiliza das redes sociais para incentivar a ciência e a inclusão de minorias no setor, participa hoje do Economia SC Drops, confira abaixo:

Como sua presença na cadeira da presidência da Sociedade Brasileira de Física pode impactar a visão do setor no país?

Débora: Segundo dados coletados recentemente, os sócios da Sociedade Brasileira de Física são, na sua maioria, homens, brancos, do Sudeste do país. Isso significa que há grupos sub-representados, entre eles o das mulheres e negros. Apesar dos dois grupos serem maioria na população, segundo os dados do IBGE, na física e na SBF são minoria. A consequência disso é que os estereótipos de gênero e étnicos parecem ser confirmados, isto é, quando se pensa num(a) cientista da área da física, o que vem à cabeça da maioria das pessoas é um homem branco. Minha presença pode ajudar a mostrar que mulheres podem ser cientistas, podem ter carreiras internacionais consolidadas e podem até ser presidentes da SBF, passando um recado positivo e um modelo de sucesso para as meninas que pensam em seguir uma carreira científica nas áreas mais duras do conhecimento (STEM = sigla inglesa para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Cabe salientar que outras duas mulheres já ocuparam essa presidência: Elisa Saitovich e Belita Koiller, ambas eleitas para vice-presidentes, mas que acabaram ocupando essa cadeira quando os presidentes eleitos assumiram outros cargos. O inusitado na minha eleição é que fui a primeira mulher cabeça de chapa, efetivamente eleita. 

A presença de mulheres na ciência é algo que você já traz nas redes sociais. O que te leva a criar conteúdos sobre o assunto e quais são os feedbacks? Positivos? Negativos?

Débora: Desde que minha carreira se consolidou, passei a ocupar parte do meu tempo com projetos de extensão e de divulgação científica. Mais recentemente, devido a essa onda negacionista acompanhada do fortalecimento de um discurso machista e misógino, pensei em juntar tudo num projeto só: o Canal Mulheres na Ciência. A ideia do canal é mostrar, ao mesmo tempo, que as mulheres são tão competentes quanto os homens e divulgar ciência de qualidade numa linguagem acessível, contribuindo assim, para o letramento científico de quem se interessa por aprender. O retorno é super positivo: além das milhares de visualizações no YouTube e no seu análogo no TikTok, o projeto tem claramente incentivado meninas a não ter medo de optar por carreiras nas ciências exatas, da computação e das engenharias, além de uma enorme repercussão em mídias sociais e podcasts. 

Como estimular que mulheres sigam carreira na ciência e quais são os principais obstáculos encontrados em uma das áreas majoritariamente masculina?

Débora: Os maiores obstáculos são a ameaça pelo estereótipo e o viés implícito, além das dificuldades inerentes a essas carreiras para todos os brasileiros que vêm de escolas públicas, sejam meninos ou meninas. Para se ter uma ideia, a cada 100 brasileiros que se graduam no ensino superior, apenas 4 vão para as áreas STEM e apenas uma é mulher. Para o Brasil avançar e passar a ter uma sociedade mais equilibrada e mais competitiva do ponto de vista tecnológico, precisamos de mais engenheiros, cientistas, pessoas trabalhando com computação e análise de dados e não podemos desprezar o capital intelectual de 52% da população, que são as mulheres. Para estimulá-las, precisamos lutar contra o preconceito e de políticas públicas que mostrem às meninas que são intelectual e cognitivamente tão capazes quanto os meninos. Isso vale também para os negros.

Quais são seus planos para a Sociedade Brasileira de Física? 

Débora: Por incrível que pareça, a profissão de físico só foi reconhecida no Brasil em 2018 e estamos em vias de criar os Conselhos de Física (Federal e Regionais). Teremos que trabalhar para conseguir o apoio dos parlamentares assim que o projeto de lei estiver pronto.  Além disso, a SBF presta um excelente trabalho, tanto para os seus sócios, quanto para a sociedade em geral. Só para citar alguns exemplos:  disponibiliza um repositório de aulas virtuais para ensino médio e superior, completamente gratuitas ao alcance de um clique para quem quiser, organiza vários seminários tanto para o público leigo quanto para especialistas também disponíveis no seu canal do YouTube, é responsável pela publicação de diversas revistas científicas de qualidade (Revista Brasileira de Ensino de Física, Brazilian Journal of Physics, Revista de Física Aplicada e Instrumentação), veicula uma excelente revista de formação, coordena um site de verificação de conteúdos, é responsável pela coordenação das Olimpíadas Brasileiras de Física (OBF), Olimpíadas Brasileiras de Física da Escola Pública (OBFEP), Olimpíadas Internacionais de Física, coordena o  Exame Unificado de Física, necessário para ingresso na maioria dos programas de pós-graduação em física no Brasil, coordena o Mestrado Nacional Profissional de Ensino de Física, voltado para professores do ensino médio que queiram melhor se capacitar, organiza e apoia uma série de eventos científicos anualmente nas diversas subáreas da física (Reunião de Trabalho em Física Nuclear, Encontro de Outono da SBF, Encontro Nacional de Partículas e Campos, etc), outorga vários prêmios anuais, oferece plano de saúde para os seus sócios, entre outros. Meus planos são trabalhar para a divulgação desses excelentes serviços com uma linguagem adequada por meio de mídias sociais, além de fortalecê-los e aprimorá-los. Também vou trabalhar por uma maior equidade de gênero e étnica nos eventos organizados pela SBF e em todas as instâncias nas quais ela se fizer representar. Dois anos passam rápido.

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