Economia SC Drops: Os principais desafios do varejo de moda pós-pandemia

Mesmo com o crescimento das vendas digitais, o Brasil tem uma característica muito relevante da compra física porque ela está atrelada ao momento de lazer. O passeio no shopping com a família, por exemplo, acaba resultando em compras.

Para saber os principais desafios do varejo de moda pós-pandemia, o Economia SC Drops entrevistou Felipe Sanchez, CEO da Global Química & Moda, empresa líder no setor de impressão digital têxtil direta no tecido, com cerca de 70% do market share brasileiro. Confira abaixo:

Quais serão os principais desafios do varejo de moda pós-pandemia? Por quê?

Felipe: No último ano, o comércio eletrônico teve um incremento de 34% nas visitas totais, o que estimulou principalmente o varejo e o mercado da moda, que cresceu 82% neste segmento. Esse movimento digital foi essencial para muitas empresas driblarem a crise do varejo físico, impactado pelas restrições de funcionamento ao longo do ano. Para se ter uma ideia, as lojas virtuais atingiram a marca dos quase 20 bilhões de acessos no país, sendo o segmento da moda o que mais vendeu também neste mesmo ano. No pós-pandemia, um dos grandes desafios do varejo de moda será criar experiências relevantes para o seu consumidor. Mesmo com o crescimento das vendas digitais, o país tem uma característica muito relevante da compra física porque ela está atrelada ao momento de lazer. O passeio no shopping com a família, por exemplo, acaba resultando em compras. Com a pandemia sob controle, acredito que muito do que era o cenário anterior vai voltar à tona. No entanto, haverá um impacto em relação ao omnichannel, que precisará ser cada vez mais verdadeiro. O consumidor quer ser atendido de qualquer lugar, em qualquer formato. Caberá ao varejo de moda entender esse novo momento e proporcionar a integração entre ambiente físico e online. Comprar na loja, retirar em casa e vice-versa deve se tornar algo comum.

Como a preocupação com o meio ambiente impacta no consumo da moda atualmente?

Felipe: Existe uma nova geração chegando ao mercado. Os jovens, por exemplo, tendem a ter mais consciência sobre o impacto do consumo desenfreado e da produção sem controle e com desperdício, porque ele foi criado em um ambiente e em um momento que já se voltava para a questão sustentável. O movimento Fast Social – criação de novas demandas da moda via redes sociais – já é uma realidade e vem sendo atendida com o apoio da tecnologia. Impressão digital com consumo zero de água no processo e a opção de produção sob demanda, reduzindo a necessidade de estoques deixou de ser tendência para se tornar necessidade. O consumidor tem pressa, é exigente e leva, cada vez mais em consideração, boas práticas de ESG (do inglês Environmental, Social and Governance, ou seja, Ambiental, Social e Governança) na hora de escolher as marcas com quem se relaciona.

Como isso vai impactar o setor? Quais adaptações serão necessárias para atender a essa nova demanda?

Felipe: Entre os principais diferenciais de quem quiser se manter forte dentro deste movimento será a qualidade. Mais do que atender a demanda do consumidor, será preciso oferecer um produto capaz de confrontar a enorme concorrência dos nossos dias atuais. A possibilidade de produção pontual, com a redução de estoques, também será essencial para que o varejo de moda seja ágil e eficiente, garantindo a lucratividade. Hoje já existem marcas no e-commerce que trabalham com estoque praticamente zerado, mantendo a disponibilidade de produtos. Ou seja: quando o consumidor faz a compra e escolhe a cor, tamanho e estampa que deseja, a indústria produz de acordo com essa necessidade, através de técnicas de automação em todos os processos, especialmente na finalização do produto. Só em 2019, por exemplo, mais de 80 milhões de metros de tecidos foram estampados por meio de impressão digital no mercado brasileiro de moda.

Marcas de pequeno porte podem ganhar mais espaço com essa mudança no consumo?

Felipe: Sem dúvidas. Esse tipo de negócio habitualmente já nasce com uma pegada muito semelhante ao Fast Social, apostando, por exemplo, em coleções cápsulas, trazendo mais lançamentos em curto espaço de tempo. Com a digitalização, muitas vezes é possível finalizar uma peça na presença do cliente, em poucos minutos. É o caso de peças estampadas digitalmente nos pontos de vendas. A marca de moda urbana Korova, cliente da GQM, aposta nessa opção e tem tido sucesso com isso. Outro fator é que os pequenos negócios podem trabalhar ainda mais o valor agregado das peças. Modelos exclusivos e de alta qualidade e durabilidade são cada vez mais procurados por uma geração que prefere consumir menos para consumir melhor. Para manter a lucratividade, o foco precisa estar na redução de desperdício na produção.

Quais os benefícios desse consumo mais consciente?

Felipe: Um levantamento da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), apontou que 24% de tudo que se produz no mercado de moda vai para perdimento, é remarcado ou até mesmo queimado. Apostar em soluções que aliam consumo consciente com produção assertiva traz um grande impacto na redução de desperdício. E isso influencia toda a cadeia produtiva: quando se aproveita melhor os recursos, a indústria pode otimizar custos e o resultado dessa economia, consequentemente, chega ao consumidor final.

Como a tecnologia impacta o setor?

Felipe: Se há alguns anos produzir em grandes quantidades era a única forma de manter uma operação lucrativa, a inovação no têxtil abriu precedentes para o fortalecimento de outras formas de consumo. Assim, o fast-fashion foi se transformando e hoje é o smart-fashion que ganha destaque. Ou seja: consumimos menos, mas de forma mais assertiva. Com a ascensão de novos formatos de produção, como a impressão digital têxtil, a produção em larga escala deixa de ser uma necessidade. É possível otimizar estoque e produzir com mais qualidade e personalização, através de processos limpos, rápidos e produtivos. Com a produção ágil, reduz-se a necessidade de estoque e, consequentemente, se repõe rapidamente os produtos, ao passo que é possível inovar, manter peças personalizadas e com melhor custo-benefício.

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