O desafio de comunicar o cooperativismo

O cooperativismo de crédito cresceu 35% no país no último ano, mais que o dobro do registrado pelo sistema financeiro, que ficou em 15,6%, de acordo com o Banco Central. Muita gente sabe que as cooperativas cresceram tudo isso oferecendo os mesmos produtos e serviços que os bancos, a taxas menores e ainda levando educação financeira aos cooperados e a locais importantes como as escolas. Mas o cooperativismo de crédito e demais ramos precisa melhorar sua comunicação com a sociedade, evidenciando as vantagens de participar e os benefícios para todos. 

Um exemplo disso é um estudo recente que recebeu destaque na Folha de São Paulo. Se não pertencessem a uma cooperativa de crédito, em 2020 os cooperados do Sistema Sicoob teriam gastado R$ 8,3 milhões a mais em juros e tarifas de modalidades como cheque especial e rotativo do cartão de crédito. É o que revela uma pesquisa que comparou o custo financeiro da cooperativa com os valores praticados por bancos tradicionais. 

Segundo o estudo do Sicoob, quem entrou no cheque especial pagou 0,78 ponto percentual a menos na taxa de juros mensal com relação à média dos bancos. No ano passado, cada cooperado economizou em torno de R$ 3.100,00 ao eleger uma cooperativa como sua instituição financeira. “O estudo foi feito com as cooperativas ligadas ao Sicoob, mas a lógica vale para qualquer outro sistema cooperativo”, destacou o meu amigo Ênio Meinen, diretor de coordenação sistêmica e relações institucionais do Sicoob. Ele tem razão.

Na mesma reportagem, o coordenador da área de crédito da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Thiago Borba, considera a divulgação um “calcanhar de Aquiles” do cooperativismo. “Conseguimos falar bem com o público interno, mas ainda precisamos melhorar na comunicação com a sociedade, para mostrar as vantagens de ser cooperado. Ainda há muito espaço para crescer em centros urbanos e grandes cidade. As cooperativas se consolidaram em áreas rurais e no interior”, diz. De fato, durante a pandemia as cooperativas ampliaram a oferta de crédito a produtores rurais no país, mas na cidade muitos ainda as enxergam como instituições fechadas e não sabem que elas funcionam como os bancos. 

Enquanto os bancos precisam dar lucro aos acionistas, as cooperativas distribuem resultado aos próprios cooperados. Ao abrir uma conta em uma cooperativa, você se torna um sócio dela. Se você nunca se associou a uma, talvez tenha um entendimento ainda muito vago sobre o cooperativismo. Mas o fato é que uma a cada sete pessoas no planeta está, direta ou indiretamente, ligada a uma cooperativa. E é muito provável que você esteja entre elas, mesmo que ainda se sinta alheio a isso. 

Vamos imaginar um dia qualquer da sua vida, em que a manhã esteja assim configurada:

7h – Você acorda e prepara um café com leite, acompanhado de pãozinho com manteiga.

7h10min – Liga a TV para assistir ao noticiário matutino.

7h45min – Como você tem consulta médica agendada, decide chamar um táxi para chegar no horário.

7h55min – Ao sair de casa, você aproveita para tirar o lixo reciclável e depositá-lo no contêiner da coleta seletiva.

8h – Embarca no táxi que já estava à sua espera.

8h20min – Chega à clínica médica para a consulta com um especialista.

Eu diria que não são nem 9h e você já teve contato com o trabalho de seis ou mais cooperativas diferentes. 

Comecemos pelo café da manhã. É na mesa que as cooperativas se fazem mais presentes na nossa rotina: 50% da produção do campo brasileiro passa pelas mais de 1,2 mil cooperativas do ramo agropecuário, que une e fortalece produtores rurais, especialmente da agricultura familiar. No seu desjejum havia um exemplo disso – quase metade da produção nacional de café, leite e laticínios provém do cooperativismo agrícola. Basta dar uma olhada na embalagem: se traz o pinheirinho duplo, um dos símbolos universais do movimento cooperativista, não tem como errar. E dependendo da cidade onde você mora, existe a chance de a eletricidade que alimenta a TV em que você assistiu às notícias da manhã ter vindo de uma cooperativa geradora de energia. 

Já fora de casa, é bem possível que sua corrida tenha sido feita pelo motorista de uma cooperativa, uma das formas mais comuns de organização dos taxistas nos centros urbanos. Se a sua consulta foi coberta pelo plano de saúde de médicos cooperados, você está entre os 25 milhões de brasileiros atendidos pelo maior sistema cooperativo de saúde do mundo – que, embora não seja acessível a todos, facilita muito o acesso à qualidade dos serviços privados. E provavelmente o seu lixo foi encaminhado a uma cooperativa de reciclagem. A união de trabalhadores que fazem a coleta e a separação de resíduos sólidos, muitos deles em situação de vulnerabilidade social, é fundamental para a reciclagem no país: 90% do material reciclável passa por cooperativas.  

Como você vê, a força do cooperativismo é mais onipresente do que imaginamos no nosso dia a dia, e todos nos beneficiamos disso. Existem 3 milhões de entidades cooperadas no mundo, manejando desde atendimento médico a hortaliças, de crédito financeiro a energia elétrica. E essa é uma ideia que todo mundo precisa conhecer melhor.

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